terça-feira, 18 de setembro de 2012

Problemas com carrapatos? Conheça seu inimigo e aprenda como derrotá-lo.

Seja pelo risco de doenças, pela anemia ou pela irritação que causam na pele do animal, quem tem ou teve cão, já padeceu para combater infestação por carrapatos alguma vez. As tentativas são frequentes e demandam mais tempo, esforço e custo do que se gostaria. E no fim, sobra o desespero, quando não se tem a estratégia adequada. A proposta aqui é simples: entender como traçar uma estratégia eficaz de prevenção aos carrapatos. 

Mas antes de qualquer coisa, vale um aviso: esse texto não contém uma “receita de bolo” nem um protocolo pronto para você. A consulta ao médico veterinário que conhece seu animal é imprescindível na orientação da escolha dos muitos produtos disponíveis no mercado. A intenção aqui é tentar explicar porque tem sido tão difícil se livrar dos carrapatos. 

A primeira questão importante é: o que se conhece desse inimigo? 




Carrapatos são artrópodes, classificados na mesma classe das aranhas (Arachnida) e alimentam-se de sangue. 

Permanecem no hospedeiro durante praticamente toda a sua vida, indo ao ambiente apenas na hora de colocar os ovos e mudar de fase.

Cada fêmea é capaz de colocar de duzentos a três mil ovos no ambiente. Muitos dos quais, na natureza, acabam sofrendo a influência do meio (excesso ou falta de umidade, luz solar, temperatura, tipo de solo) ou fazendo parte da cadeia alimentar natural, sendo ingeridos por outros artrópodes e aves, de forma que apenas alguns poucos sobrevivem e conseguem alcançar o hospedeiro.

Quanto mais quente o clima, mais estímulo à procriação dos carrapatos. Por isso em locais como o Rio de Janeiro é tão comum haver infestação por carrapatos durante praticamente o ano todo. Em áreas de clima mais ameno, como o sul do país, é com a chegada do verão que torna-se indispensável o controle e a prevenção desses aracnídeos. 

Se o cão vive em área rural ou em sítio, sem contato com o interior da casa e sem “casinha” de cachorro, ele pode ser parasitado pelo carrapato-estrela (Amblyomma sp), que além do cão, também pode parasitar o homem e transmitir a ambos, várias doenças infecciosas, como a febre maculosa, que pode ser fatal quando não medicada. Esse texto não se refere ao Amblyomma sp, mas ao carrapato urbano, o Rhipicephallus sanguineus, que parasita o cão da cidade, ou cão morador de área urbana, seja apartamento ou casa, com ou sem acesso à rua. 


Enquanto o carrapato rural necessita de ambiente rico em umidade (mais de 95%), o Rhipicephallus sanguineus sobrevive com umidade de até 70%. Por isso, ambientes revestidos de plástico, madeira, metal e cimento são seu habitat mais favorável. 

Antes de escolher a melhor estratégia de controle desse parasita, observe as afirmações abaixo, sobre o Rhipicephallus sanguineus
- Não voa! 
- Não parasita as aves! 
- Não parasita o ser humano! 
- Diferente das pulgas, esse carrapato só sai do hospedeiro (cão) para a oviposição e ecdise (mudança de estágio evolutivo). 
- A larva já sai do ovo com fome e procura o hospedeiro imediatamente, movendo-se sempre para o alto. 
- Sua saliva pode passar doenças para o cão, como erlichiose, rangeliose e babesiose, que se não tratadas podem ser fatais. E o animal não precisa estar infestado para isso! Apenas um carrapato já é capaz de transmitir essas doenças, se estiver contaminado, ou seja, se tiver picado outro animal doente. Se a fêmea estiver contaminada, seus 3.000 ovos também estarão. 
- Instintivamente, esse aracnídeo sobe e procura abrigo nas frestas de paredes e muros e pode estar numa caixa de papelão ou em algum eletrodoméstico (como máquina de lavar roupa, se o cão dorme na lavanderia, por exemplo). 
- Não fica em tapetes ou em frestas do chão! 
- Na grande maioria das vezes, fica próximo de onde o cão dorme! 
- Locais mais comuns dentro de casa: embaixo da cama, embaixo do sofá, embaixo de armários e da mesa de centro da sala, dentro das frestas das paredes e muros, atrás de quadros e da moldura do ar condicionado, entre o teto e a parede... 
- Ele pode chegar à sua casa de três formas: caminhando (vem pelas paredes ou muros), com o cão (ao passear) e "de carona" com objetos (móveis, casinha ou caixa de transporte do cão, eletrodomésticos,  sapato ou roupa de quem entra na casa). 
- É possível e comum trazer carrapatos na sola do sapato ou na roupa, ao passar na calçada ou encostar em algo no caminho para casa. 
- Importante: o cão não pega esse carrapato ao passear na grama, mas quando se esfrega no muro ou anda na calçada ou dentro de caixa de transporte que outros cães usam! 
- O carrapato que passa andando na parede vai mostrar onde é o esconderijo dos outros. Basta acompanhar o seu trajeto. 
- Cão de quintal gramado, sítio ou de área rural só é infestado pelo carrapato urbano quando tem casinha. Se dormir na grama, a umidade do solo não permite que sobreviva.
- É difícil demais descobrir de onde pegou. A fêmea leva vinte a trinta dias fazendo postura no ambiente e a larvas nascem cerca de um mês depois. Isso significa que o carrapato achado agora no cão pode estar na casa há pelo menos um ou dois meses! 

Agora sim, conhecendo mais o inimigo, é possível entender melhor as possíveis estratégias. Para ajudar mais, segue abaixo a lista do que não fazer e a sua explicação.

1) Tratamento curativo, ou seja, usar os carrapaticidas durante a infestação, não adianta de quase nada. Se o plano for esperar ver os carrapatos para tomar uma providência, além de arriscar a saúde do cão, a chance de insucesso no controle da infestação é grande, já que o parasita está muito bem adaptado ao habitat pouco úmido e urbano, à sua casa. 

2) Tratamento com xampus e sabonetes antiparasitários não é eficaz. Não há efeito residual protetor após o enxague do produto. Isso quer dizer que somente matam os carrapatos que estão no animal no momento do banho. Nunca devem ser utilizados como estratégia única. 

3) Tratamento com coleiras antiparasitárias é inútil se o cão é banhado a cada quinze dias, sete dias ou mais frequente que isso. O produto ativo da coleira espalha-se na superfície da pele e demora cerca de vinte dias para atingir concentração suficiente para o máximo efeito descrito na embalagem. As coleiras não agem no ambiente e por isso só são eficazes para cães que não necessitam de banho e quando associadas a um controle ambiental simultâneo. 

 4) Antiparasitários de depósito (produtos em spray ou top spot, de uso mensal) somente agem no cão. Diferente dos xampus e sabonetes, seu efeito residual é longo, mas não agem no ambiente contra carrapatos. Além disso, a absorção e a distribuição da substância ativa podem ser muito afetadas em  animais com pele inflamada (seborreia, alergia, dermatites), reduzindo  a duração de ação e a eficácia do produto. 

 5) Carrapaticidas ambientais: podem ser tóxicos para os animais e para a sua família. Devem ser utilizados com as proteções adequadas para evitar contato com a pele, olhos e narinas. São eficazes no controle ambiental somente quando aplicados nos locais onde os carrapatos estão. Isso quer dizer que lavar o chão da casa ou o quintal com esses produtos de nada adianta! A aplicação em locais não cobertos deve ser repetida sempre que chover, já que esses produtos misturam-se facilmente com água. Ainda que sejam usados de forma adequada, não agem no animal e basta um carrapato conseguir parasitar o cão para recomeçar todo o ciclo de vida com mais muitos milhares de ovos no ambiente de novo. 

Para concluir, além de entender o que não fazer, é preciso passar a aplicar o mesmo conceito que se usa para as vacinações anuais, em que não se espera ocorrer a doença para vacinar. É necessário instituir a prevenção e não mais apenas o combate aos carrapatos! 

Assim, pode-se afirmar que a melhor estratégia no controle das infestações por carrapatos deve incluir o uso periódico e frequente de uma combinação de produtos que atuem no cão e também no ambiente, durante toda a vida do animal.

Por fim, a escolha do melhor protocolo terapêutico, dentre os vários produtos existentes no mercado brasileiro, deve ser feita com o seu médico veterinário, levando em conta fatores como o número de animais, o ambiente, o bairro onde vive, o grau de exposição, o estado geral da saúde dos cães, a idade e também o orçamento disponível. 
Seja ela qual for, a fórmula mágica para evitar o desconforto das picadas, o risco de anemia e doenças infecciosas pelo carrapato vermelho do cão é sempre trabalhosa, custosa e pode variar, mas é a única chance de sucesso no controle dos carrapatos.